MEMÓRIA CATINGUEIRA: ESTUDO DE FANTASIA
LEIGA PARA UM RIO SECO, DE ELOMAR FIGUEIRA MELLO
Neste trabalho, selecionamos alguns textos que tematizam histórias de sagas catingueiras e demarcam a trajetória empreendida pelo retirante em busca de um lugar utópico, quando a sua terra natal, queimada pela seca, já não pode lhe dar os subsídios para sua sobrevivência. Tomamos, como ponto principal, o texto de Fantasia Leiga para um rio seco[1], ópera composta por Elomar Figueira Mello, poeta e cantador nascido no sertão de Vitória da Conquista, a fim de delinear as marcas do que chamamos de uma memória catingueira.
As imagens poético-musicais de Elomar Figueira Mello constituem-se num rico acervo, registrado em publicações e, principalmente, vivo e fecundo em sua memória de contador de histórias. A fonte dessas imagens, perene e abundante, onde Elomar busca a matéria para a sua escritura, é o Sertão, a memória do catingueiro, suas vivências, sua caminhada pela terra seca e branca da caatinga; é a história da gente do sertão, dos fatos e imagens que, mesmo não tendo sido vistos pelo sujeito, inscreve-se no seu corpo, na sua palavra, no seu discurso, no seu imaginário. São as marcas da cultura sertaneja, a recordação de uma história ancestral, intemporal, a que o cantador denomina “visitante de remotíssimos dias”[2].
Como parte de sua função enquanto poeta do sertão, Elomar utiliza-se de um processo de recolhimento das histórias, mitos e lendas da tradição do nordeste brasileiro, reencenando, recontando e rescrevendo, em seus textos, os valores dessa tradição. Esse método é registrado por Ernani Maurílio no encarte da ópera Auto da Catingueira[3], também composta por Elomar e datada de 1984:
Essas histórias são a história, recolhidas e ouvidas de feira em feira, de cantador, projetando uma realidade do passado, intemporal, no presente real.
Na contracapa da ópera Fantasia leiga para um rio seco, a importância da tradição oral é afirmada:
Desde as distantes noites de inverno da infância, na casa de meus pais, no S. Joaquim que não me cansei de parar para ouvir deles e de outras pessoas mais velhas, tia Mera, Vó Maricota, mãe Nênêm, Mané pé Sêco, tio Vivaldo... relatos dramáticos sobre aquela seca, aquela fome que chibatou e ceifou milhares de vidas catingueiras
Aqui Elomar refere-se à seca dos noventinha, que assolou sete estados do nordeste brasileiro no período de 1890. Ainda que não tenha presenciado o drama dessa seca, Elomar tem acesso à história, através de seus antepassados, o que lhe permite contá-la nessa Fantasia. O trecho citado remete ao livro de Joel (“A terrível caristia causada pela locusta e pela seca”), pertencente à narrativa bíblica. Nesse texto, a palavra atribuída ao Senhor é dirigida a Joel, como um pedido para propagar as histórias míticas da tradição:
Ouvi isto, vós, ancião, e escutai, todos os moradores da terra: Aconteceu isto em vossos dias? Ou também nos dias de vossos pais?
Fazei sobre isto uma narração a vossos filhos, e vossos filhos a seus filhos, e os filhos deste à outra geração.
(Joel, 1. 2, 3)
A ópera foi gravada em dezembro de 1980, com a participação da Orquestra Sinfônica da Bahia e regência do maestro Lindenbergue Cardoso. É composta de cinco movimentos: 1. Incelença pra terra que o sol matou; 2. Tirana; 3. Parcela; 4. Contradança e 5. Amarração. É declarada, em forma de um monólogo, por um retirante, que, ao contar a sua história, está também contando a história da seca dos noventinha. Ele é o último sobrevivente da seca dos noventinha, mas sua saga é, antes, o percurso de uma morte e sua vida é, como a vida severina, “menos vivida que defendida”[5]. Ao deparar-se com todo um contexto de desolação e ausência de vida, decide, como última saída, seguir para o Sul, para a terra do “vai-num-torna”.
Embora as promessas de riqueza cheguem com as notícias de prosperidade vindas principalmente da cidade de São Paulo – no contexto da tradição nordestina, uma espécie de lugar idílico, um eldorado- , reza a tradição que não há retorno na partida para essa terra estranha, pois, como é dito nos trechos de Tirana e Parcela, respectivamente:
(...)
todos qui fôro num voltaro tão nos ceus.
prú vai-num-torna prá num voltá mais aqui
in terra istranha e morrê longe do sertão”
“pru vai-num-torna vamo ritirano
e abaldonando as patra do sertão
té a chuva torna cum passá dos anos
mais do vai-num-torna num se volta não
A jornada empreendida pelo retirante é descrita como uma sina irrevogável e é uma sina de morte. A descrição de sua morte é representada, em contrapartida, nas imagens que descrevem a cena de seca e morte da terra catingueira e a secura do Rio Gavião:
Levanto meus olhos
pela terra seca
só vejo tristeza
qui disolação
e u’a ossada branca
fulorano o chão
e o passu-Rei, rei do manjá
deu bença à Morte prá avisá
prus urubú de ôtros lugá
qui vince logo pru jantá
do Rei do Fogo e do luá
do luá sizudo
do Ri Gavião
mais o sol malvado
quemô os imbuzêro
os bode e os carnêro
toda a criação
tudo o sol quemô
(...)
A cena assemelha-se à descrita no livro de Joel:
(...) porque o fogo consumiu os pastos do deserto, e a chama abrasou todas as árvores do campo.
Também todos os animais do campo bramam a ti: porque os rios se secaram, e o fogo consumiu os pastos do deserto.
(Joel, 1. 19, 20)
Essa desertificação da ressoa no retirante como o efeito de uma morte. A terra, deserta, vai receber do poeta uma incelença, que é um canto de louvação ao morto: Incelença pra terra que o sol matou. Nessa realidade, o sol é aquele que queima, mata e desola, na má água da seca, embora seja louvado noutro momento, no fragmento nº 3, intitulado Gratidão, da Antiphonia Sertani, gravada em Elomar em conserto. A chuva, ao contrário, vem representar o bem, como é dito na canção Campo Branco: “Todo bem que nós tinha era a chuva era o amor” ou mesmo em Joana flor das Alagoa, canto de louvor à chuva.
Porém, a dor, ainda que vivenciada de forma intensa, sustenta-se na fé resistente do catingueiro e na promessa da vida no “Santo Reno de Deus”, revelada pelo “Rei da Glora”, designação atribuída ao Cristo, que prometeu sua volta. A terra deserta é descrita no canto Amarração, cujo refrão é repetido insistente:
Cadê os pé dos imbuzêro
Qui florava todo ano
Nas baxada e nas vereda mana mi~a
Cadê os pé d’imbú meu mano
Adeus pé dos imbuzêro
No canto final da ópera, ressoam trombetas, em aviso à chegada do momento do acerto com Cristo, no Juízo Final, remetendo à cena do Apocalipse, e ao retirante, finalmente, é concedido o reino dos céus, lugar utópico a que o retirante deseja alcançar, como meta da viagem e da retirada. Esse momento é cantado por um coro:
O vai-num-torna já vamo avistano
É como um céu trancado e sem luar
Na noite imensa vamo mergulhando
Sem esperança de um dia voltar
Mas de repente dois olhos ardentes
Vejo na frente um chapadão sem fim
Um céu aberto e uma luz imensa
Santos e anjos cantando pra mim.
A ópera, ao narrar a história de uma retirada, a saga do nordestino em sua sina de vida e morte catingueira, de morte e vida severina, nos remete, na tradição dos textos da literatura, para esse “auto de natal pernambucano”, assim denominado pelo seu autor, João Cabral de Mello Neto. É o retirante sem nome ou de nome comum, mas incomum em sua sina:
E se somos Severinos/ iguais em tudo na vida,/ morremos de morte igual,/ mesma morte severina (...) Só morte tem encontrado/ quem pensava encontrar vida,/ e o pouco que não foi morte/ foi de vida severina/ (aquela vida que é menos/ vivida que defendida, e é ainda mais severina/ para o homem que retira.
E é também o de nome nominado, mas também de mesma sina: o vaqueiro Fabiano, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Na produção elomariana, não há uma proposta de desconstrução do passado; ao contrário, confirma uma memória que ainda resiste ao processo de modernização da paisagem sertaneja, reafirmando discursos e valores que podem ser lidos, talvez, como um alheamento às realizações históricas, culturais e políticas da modernidade, uma vez que representam idéias idílicas, de um mundo agrário construído em utopia. Nesse modelo, é também representado o mito do artista que funciona como um profeta, mediador entre os homens e a divindade, com a missão de despertar os homens para o Deus, o que situa essa produção nas fronteiras da função religiosa e da estética, tendo o artista não só a função de produzir a obra, mas, também, a de servir e despertar os homens, como é função do profeta. Em Elomar, esse lugar de utopia tem como suporte principal a “palavra véa”, imagem metafórica utilizada por Elomar para o texto bíblico, e é representado na relação do homem sertanejo com a chuva, com o sol, com a terra, com os animais, na reverência ao poeta sertanejo, aos trabalhadores do sertão, às mulheres e musas do sertão.
A memória catingueira de que falamos é, pois, a memória do campo branco, da terra seca e da carência de água, do retirante em migração, do sertão coberto pelo mato branco da caatinga. É a memória que reserva histórias ancestrais, em meio ao processo de desertificação provocado pela seca, enquanto fenômeno natural, e por processos político-econômicos. A voz do catingueiro, fortemente plantada nas tradições do nordeste brasileiro, é uma voz marcada pela resistência e pela religiosidade. As histórias de sagas, enquanto narrativas míticas e lendárias, são também histórias de resistência e permanecem em nossa memória como um mito sertanejo, como no refrão de Luiz Gonzaga que insiste e repete em nossa memória: “Só deixo o meu cariri no último pau-de-arara”. Essas histórias traçam, também, o percurso de uma cultura fortemente enraizada nos valores de uma tradição que resiste em empreender uma viagem ao outro, uma vez que opta por ser “visitante das estrelas” e “hóspede celeste” - ou seja, uma viagem transcendente, como é dito na cantiga Seresta Sertaneza[6], de Elomar, e uma vez que o conjunto de seus valores morais são, aparentemente, suficientes para a sua vivência.
Na saga descrita nessa Fantasia, Elomar realiza o seu projeto, que é o de recuperar, através da produção artística, a dimensão que ficou perdida ou não foi contada pelos historiadores e cronistas oficiais da época, que é o que foi vivido de forma dramática por cada homem que participou e participa dessa história e preservado, como afirma Elomar, nos “gemidos, débeis fios de vozes, côro profundo do cantar dos cirros”[7].
A TARDE CULTURAL. O sertão vai à ópera. Salvador, 27 de abril de 1996. P. 2- 7
BÍBLIA SAGRADA. São Paulo: Editora Ave-Maria Ltda, 1995. 99. ed.
ELOMAR. Auto da Catingueira. Manaus: Sonopress - Rimo da Amazônia Indústria e Comércio Fonográfico Ltda.
ELOMAR. Cartas catingueiras. Manaus: Sonopress - Rimo da Amazônia Indústria e Comércio Fonográfico Ltda.
ELOMAR. Das barrancas do rio Gavião. Manaus: PolyGram do Brasil Ltda.
ELOMAR. Elomar em concerto. Kuarup Discos.
ELOMAR. Fantasia leiga para um rio seco.Manaus: Sonopress - Rimo da Amazônia Indústria e Comércio Fonográfico Ltda.
ELOMAR. Na quadrada das águas perdidas. Manaus: Sonopress - Rimo da Amazônia Indústria e Comércio Fonográfico Ltda.
FERREIRA, Jerusa Pires. Armadilhas da memória (conto e poesia popular). Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1991.
MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina e outros poemas em voz alta.22 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1986.
[1] ELOMAR. Fantasia leiga para um rio seco.
[2] A TARDE CULTURAL. Salvador, 27 de abril de 1996.
[3] ELOMAR. Auto da Catingueira.
[4] Jerusa Pires Ferreira. Armadilhas da memória (conto e poesia popular). P. 59
[5] João Cabral de Melo Neto. Morte e vida severina e outros poemas em voz alta.P. 79
[6] ELOMAR. Cartas catingueiras.
[7] ELOMAR. Fantasia leiga para um rio seco.